I. Missões, a Base para a Bíblia
A maioria dos Cristãos acredita que a base para missões mundiais pode ser encontrada em partes isoladas da Bíblia, como aquelas que se referem à Grande Comissão. Na verdade, missões é muito mais fundamental para toda a Escritura. O propósito mundial de Deus é na verdade a base para toda a revelação bíblica. Colocado de forma simples, se Deus não tivesse o propósito de redimir a humanidade, não haveria provavelmente a necessidade Dele se revelar através da narrativa bíblica. Fora da missão redentiva de Deus, não teria havido nenhuma nação escolhida no Velho Testamento, nenhum Messias para se esperar, nenhuma crucificação ou ressurreição para se proclamar. O relato abreviado precisaria ter incluído simplesmente a criação, a queda do homem e sua subseqüente condenação à morte e ao julgamento eterno.
Graças a Deus, por ter tido o propósito de redimir a humanidade! Desde que Ele deseja nossa participação em compartilhar essas boas novas, Ele nos deu um relato claro sobre o que tem feito e do que pretende fazer. A Bíblia é a estória da missão de Deus – Por que e como um Deus amoroso está redimindo uma humanidade perdida. Á medida que examinamos a Bíblia nessa luz, veremos que o povo redimido está no centro da preocupação de Deus. Veremos também que levar o evangelho não é simplesmente uma atividade boa e correta. É um chamado á parceria com o Deus vivo de trazer o cumprimento glorioso de Apocalipse 11:15 “The kingdoms of this world are become the kingdoms of our Lord, and of His Christ; and He shall reign forever and ever.”
A Bíblia: O Manual de Missões
A missão redentiva de Deus é o tema central da Bíblia. O propósito amoroso de Deus não somente erradia de cada livro, mas a Bíblia é também o Manual de Deus sobre como completar esse propósito. O artigo seguinte de John Stott nos ajuda a entender esse relacionamento dinâmico.
A Bíblia na Evangelização Mundial *
John R. W. Stott **
Sem a Bíblia, a evangelização mundial seria não somente impossível, mas também inconcebível. É ela que deposita sobre nós a responsabilidade de evangelizar o mundo, dando-os um evangelho para proclamar e nos dizendo como proclamá-lo, prometendo ser o poder de Deus para a salvação de todo crente. É, mais ainda, um fato observável da História, tanto do passado quanto contemporâneo, que ao nível do comprometimento da igreja com a evangelização mundial é comensurável com o nível de sua convicção sobre a autoridade da Bíblia. Sempre quando os cristãos perdem a sua confiança na Bíblia, perdem também o seu zelo pelo evangelismo. Na prática, sempre quando eles estão convencidos sobre a Bíblia, estarão determinados em evangelizar.
Deixe-me desenvolver quarto razões porque a Bíblia é indispensável no evangelismo mundial.
O Mandato da Evangelização Mundial
Primeiro, A Bíblia nos fornece o mandato para a evangelização mundial. Nós certamente precisamos de um. Dois fenômenos estão crescendo em todo lugar. Um é o fanatismo religioso e o outro, o pluralismo religioso.
O fanático mostra o tipo de zelo irracional o qual (se possível) usaria a força para compelir a crença e erradicar a descrença. O pluralismo religioso encoraja a tendência oposta. Sempre quando o espírito de fanatismo religioso ou de seu oposto, o indiferentismo religioso, prevalece, a evangelização mundial é amargamente prejudicada. Os fanáticos recusam-se a tolerar o que o rival evangelismo representa, e os pluralistas negam suas reivindicações exclusivas. O evangelista cristão é considerado como fazendo uma intrusão imperdoável nos negócios privados de outras pessoas.
Diante dessa oposição, precisamos estar claros sobre o mandato que a Bíblia nos dá. Não é somente a Grande Comissão (importante quanto é), mas a inteira revelação bíblica. Deixe me colocar isso brevemente. Existe somente um único e vivo Deus, o Criador do universo, o Senhor das nações, e o Deus dos espíritos de toda a carne. Há 4.000 anos, Ele chamou Abraão e fez uma aliança com ele, prometendo não simplesmente abençoá-lo, mas também que através de sua posteridade abençoaria todas as famílias da terra. (Gn. 12: 1-4). Este texto bíblico é uma das pedras de fundamento da missão cristã. Para os descendentes de Abraão (através dos quais todas as nações seriam abençoadas) está Cristo e o seu povo. Se pela fé pertencemos a Cristo, somos filhos espirituais de Abraão e temos responsabilidade com toda a humanidade. Assim também, os profetas do Velho Testamento predisseram como Deus faria de seu Cristo uma herança e luz para as nações (Sl. 2:8; Is. 42:6; 49:6).
Quando Jesus veio, ele endossou essas promessas. Durante o seu ministério terreno, Ele estava restrito “ás ovelhas perdidas da casa de Israel” (MT. 10:6; 15:24), mas Ele profetizou que muitos “viriam da leste e do oeste, do norte e do sul e sentariam à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos Céus” (Mt. 8:11; Lc. 13:29). E mais ainda, depois de sua ressurreição e em antecipação a Sua ascensão, fez uma tremenda declaração de que “Toda autoridade lhe foi dada nos céus e na terra” (Mt. 28:18). Foi como conseqüência de sua autoridade universal que Ele ordenou a seus seguidores que fizessem discípulos de todas as nações, batizando-os em sua nova comunidade e ensinando-os todos os seus ensinos (Mt. 28:19). E isso, quando o Espírito Santo da verdade e poder veio sobre eles, os cristãos primitivos fizeram. Eles se tornaram testemunhas de Jesus, mesmo até os confins da terra (At. 1:8). Mais ainda, eles o fizeram “por amor de Seu nome” (Rm. 1:5; 3 Jo. 7).
Eles sabiam que Deus tinha superexaltado Jesus, entronizando-o à sua direita e conferindo a Ele o mais alto posto, para que toda língua confessasse Seu Senhorio. No mais, um dia Ele retornaria em glória, para salvar, julgar e reinar. Assim o que faltava para preencher o espaço entre esses dois retornos? A missão mundial da igreja! Não até que o evangelho tivesse alcançado os confins do mundo, disse Ele, o fim da história viria (cf. Mt. 24:14; 28:20; At. 1:8). Os dois fins coincidiriam.
Nosso mandato para a evangelização mundial, desta forma, é a Bíblia como um todo. Deve ser encontrado na criação de Deus (porque todos os seres humanos são responsáveis diante Dele), no caráter de Deus (como expansivo, amável, compassivo, não desejando que ninguém pereça, mas que todos venham a se arrepender), nas promessas de Deus (de que todas as nações seriam abençoadas na semente de Abraão tornando-se herança do Messias), no Cristo de Deus (agora exaltado com autoridade universal, para receber aclamação universal), no Espírito de Deus (que convence do pecado, testemunha de Cristo e impele a igreja a evangelizar), e na igreja de Deus (a qual é multinacional, comunidade missionária, sob a ordem de evangelizar até a volta de Cristo).
Essa dimensão global da missão cristã é irresistível. Cristãos individuais e igrejas locais não comprometidos com a evangelização mundial estão contradizendo (tanto através da cegueira ou da desobediência) uma parte essencial de sua identidade dada por Deus. O mandato bíblico da evangelização mundial não pode ser ignorado.
A Mensagem para a evangelização mundial
Segundo, a Bíblia nos dá a mensagem para a evangelização mundial. O Pacto de Lausanne definiu evangelismo em termos de evangelho. O parágrafo quatro começa: Evangelizar é espalhar as boas novas que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou dos mortos de acordo com as Escrituras, e que como Senhor que reina, oferece agora o perdão dos pecados e a liberação do dom do Espírito a todos aqueles que se arrependerem e crer. Ao voltarmos para a Bíblia como nossa mensagem, entretanto somos confrontados imediatamente com um dilema. Por um lado, a mensagem nos foi dada. Não podemos assim inventá-la; ela nos foi confiada como um precioso “depósito”, o qual nós como bons despenseiros devemos guardar e dispensar ao domésticos de Deus (1 Tim. 6:20; 2 Tim. 1:12-14; 2 Cor. 4:1-2). Por outro lado, ela não nos foi dada como uma simples fórmula matemática mas numa rica diversidade de fórmulas, nas quais imagens diferentes ou metáforas são usadas.
Assim existe apenas um único evangelho, com o qual todos os apóstolos concordam (I Co. 15:11), e Paulo poderia invocar a maldição de Deus sobre qualquer um, incluindo ele mesmo, que pregasse um evangelho “diferente” daquele evangelho apostólico da graça de Deus (Gl. 1:6-8). Entretanto os apóstolos expressaram esse evangelho único de várias maneiras ora sacrificial
(o derramamento e aspersão do sangue de Cristo) ora messiânico (a adaptação do preceito prometido por Deus), ora legal (O Juiz declarando justo o injusto), ora pessoal (o Pai reconciliando seus filhos desobedientes), ora salvífico (O liberador celestial vindo para resgatar os desamparados), ora cósmico ( O Senhor universal clamando seu domínio universal), e isso é somente uma seleção.
O evangelho é assim visto como único, porém diverso. Ele é dado culturalmente e adaptado á sua audiência.
Uma vez entendido assim, estaremos livres de cometer dois erros opostos. O primeiro ao qual chamaremos de “total fluidez”. Ouvi recentemente um líder de uma igreja inglesa declarar que não existe tal coisa como o evangelho até entrarmos numa situação em que teremos que testemunhar. Não levamos nada conosco para a situação, ele disse; descobrimos o evangelho somente quando chegamos lá. Concordo plenamente que precisamos estar sensíveis a cada situação, mas se era esse o ponto sobre o qual o líder em questão estava querendo colocar, ele o fez grosseiramente.
Existe um evangelho revelado ou dado, onde não temos a liberdade de falsificar.
Ao outro erro oposto, quero chamar de “total rigidez”. Neste caso o evangelista comporta-se como se Deus tivesse dado uma série de fórmulas precisas que precisamos repetir mais ou menos palavra por palavra, e certas imagens que devemos aplicar invariavelmente. Isso leva a escravidão tanto de palavras quanto de imagens. Alguns evangelistas erram no uso de jargões, enquanto outros se sentem obrigados em toda ocasião a mencionar “o sangue de Cristo” ou “justificação pela fé” ou “o reino de Deus” ou alguma outra imagem.
Entre esses dois extremos existe uma terceira melhor opção. Ela combina compromisso com a revelação e compromisso com a tarefa da contextualização.
Ela aceita que somente as formulações bíblicas do evangelho são permanentemente normativas e que cada tentativa de proclamar o evangelho em um idioma moderno deve justificar-se como uma autentica expressão do evangelho bíblico.
Mas se recusa a lançar fora as formulações, também recusa a recitá-las de forma enfadonha e sem imaginação.Pelo contrário, precisamos nos engajar numa luta contínua (através da oração, do estudo e discussão) para relacionar o evangelho dado á situação dada. Uma vez que ele vem de Deus devemos guardá-lo; desde que ele é pretendido ao homem e mulher modernos devemos interpretá-lo. Temos que combinar fidelidade (constante estudo do texto bíblico) com sensibilidade (constante estudo do cenário contemporâneo). Somente assim poder esperar com fidelidade e relevância relacionar o mundo com a Palavra, o evangelho ao contexto, a Escritura á cultura.
O Modelo para a evangelização mundial
Terceiro, a Bíblia nos fornece o modelo para a evangelização mundial. Além da mensagem (que vamos proclamar) precisamos de um modelo (como iremos proclamar). A Bíblia supre isso também, uma vez que a ela não somente contém o evangelho, mas é o evangelho. Através da Bíblia, o próprio Deus na verdade, está evangelizando, isto é, comunicando as boas novas ao mundo. Você pode lembrar a colocação de Paulo sobre Gênesis 12:3 que “o evangelho... pregado primeiramente à Abraão “ (Gal. 3:8, RSV). Toda a Escritura prega o evangelho. Deus evangeliza através dela. Se então, a Escritura é uma evangelização divina, ela permanece para argumentar que podemos aprender como pregar o evangelho considerando como Deus o deu. Ele nos deu no processo da inspiração bíblica um lindo modelo evangelístico
O que nos atinge imediatamente é a grandeza da condescendência de Deus. Ele teve a sublime verdade de revelar-se e a Seu Cristo, Sua misericórdia e Sua justiça e plena salvação. E Ele escolheu fazer essa revelação através de vocabulário e gramática da língua humana, através de seres humanos, imagens humanas e culturas humanas.
Assim através desse nível inferior de palavras humanas e imagens, Deus estava falando de Seu próprio mundo. Nossa doutrina evangélica da inspiração das Escrituras enfatiza sua dupla autoridade. Homens falaram e Deus falou. Homens falaram de Deus (2 Pe. 1:21) e Deus falou através de homens (Hb. 1:1).As palavras faladas e escritas eram igualmente Dele e deles. Ele decidiu o que quis dizer apesar de não abafar suas personalidades humanas. Eles usaram suas faculdades livremente apesar de não distorcerem a mensagem divina. Os cristãos querem declarar algo parecido sobre a encarnação, o clímax da auto-comunicação de Deus. “O Verbo se fez carne” (Jo. 1:14). Isto é, a Palavra eterna de Deus, que desde a eternidade estava com Deus e era Deus, o agente através do qual o universo foi criado, tornando-se um ser humano, com todas as particularidades de um Judeu Palestino do primeiro século. Ele se tornou pequeno, fraco, pobre e vulnerável. Ele experimentou a dor e a fome e se expôs à tentação. Tudo isso estava incluído na “carne”, o ser humano no qual Ele se tornou. Contudo quando se tornou um de nós, não cessou de ser Ele mesmo. Ele permaneceu para sempre a Palavra eterna ou Filho de Deus.
Essencialmente os mesmos princípios estão ilustrados tanto na inspiração da Escritura e na encarnação do Filho. O Verbo se fez carne. O divino foi comunicado através do humano. Ele se identificou conosco, apesar de não abrir mão da Sua própria identidade. E esse princípio de “identificação sem perder a identidade” é o modelo para todo evangelismo, especialmente o transcultural. Alguns de nós recusa-se a identificar com o povo com o qual deseja servir. Permanecemos nós mesmos e não nos tornamos como eles. Permanecemos à distância. Agarramos desesperadamente à nossa prática cultural com tenacidade feroz, mas tratamos a herança cultural da terra de nossa adoção sem o respeito que ela merece. Nós assim praticamos um tipo duplo de imperialismo cultural, impondo nossa própria cultura nos outros e desprezando a deles. Mas essa não foi o modo de Cristo, que se esvaziou de si mesmo da Sua glória e humilhou-se para servir.
Outros mensageiros transculturais do evangelho cometem o erro oposto. Eles estão tão determinados em se identificar com o povo que servem que rendem até mesmo seus padrões cristãos e valores. Mas outra vez, essa não era a forma de Cristo, uma vez que se tornando humano permaneceu divino. O Pacto de Lausanne expressa o princípio dessa forma:
“Os evangelistas de Cristo devem buscar humildemente esvaziarem-se de tudo com exceção de sua autenticidade pessoal para se tornarem servos dos outros” Temos que lutar com as razões pelas quais as pessoas rejeitam o evangelho e em particular dar o peso justo aos fatores culturais. Algumas pessoas rejeitam o evangelho não porque acham que ele é falso, mas porque o consideram estrangeiro.
Dr. Rene Padilla foi criticado no Congresso de Evangelização Mundial por dizer que o evangelho que alguns missionários norte-americanos e europeus exportaram era “Cristianismo Cultural” uma mensagem cristã que é distorcida pela cultura consumista e materialista do Ocidente. Foi danoso para nós ouvir isso, mas na verdade ele estava certo. Todos nós precisamos submeter o nosso evangelho a um exame mais crítico, e numa situação transcultural, evangelistas visitantes precisam humildemente buscar ajuda de cristãos locais a fim de discernir distorções culturais de sua mensagem.
Outros rejeitam o evangelho porque sentem que ele é uma ameaça para suas próprias culturas. Naturalmente que Cristo desafiou cada cultura. Sempre quando apresentamos o evangelho a Hindus ou Budistas, Judeus ou Muçulmanos, Secularistas ou Marxistas, Jesus Cristo os confronta com sua demanda de expulsar seja o que for que tenha até então mantido seguro seus pretextos e recolocá-los em Cristo. Ele é Senhor de toda pessoa e cada cultura. Essa ameaça que confronta, não pode ser evitada, mas o evangelho que proclamamos apresenta às pessoas outras ameaças que são desnecessárias, porque exigem a abolição de costumes inofensivos ou que pareçam destrutivos à arte nacional, a arquitetura, a música e os festivais, ou porque nós que o compartilhamos estamos prevenidos contra a cultura ou cegos culturalmente? Para resumir, quando Deus nos falou nas Escrituras, Ele usou a língua humana, e quando nos falou através de Cristo, Ele assumiu a carne humana. Para revelar a Si mesmo, Ele tanto se esvaziou quanto humilhou. Este é o modelo de evangelismo que a Bíblia nos dá. Existe auto-esvaziamaento e auto-humilhação em todo evangelismo autêntico. Sem isso contradizemos o evangelho e representamos mal o Cristo que proclamamos.
Poder para a evangelização mundial
Em quarto lugar, a Bíblia nos dá poder para a evangelização mundial. É extremamente necessário para mim enfatizar nossa necessidade de poder, porque sabemos o quão fraco nossos recursos humanos são em comparação com a magnitude da tarefa. Também sabemos o quão blindadas são as defesas do nosso coração humano. Pior ainda, sabemos da realidade pessoal, malevolência e poder do diabo e das forças satânicas ao seu comando.
Pessoas sofisticadas podem ridicularizar nossa crença e caricaturá-la. Mas nós, cristãos evangélicos somos simples o suficiente para acreditar no que Jesus e seus discípulos ensinaram. Para nós é um fato de grande solenidade a expressão de João “o mundo jaz nas mãos do maligno” (1 João 5:19). Porque até que eles sejam libertos por Jesus Cristo e transportados para Seu reino, todos os homens e mulheres são escravos de Satanás. Mais ainda, vemos esse poder no mundo contemporâneo – na escuridão da idolatria e do medo de espíritos, na superstição e no fanatismo, na adoração de deuses que não são, no materialismo egoísta do Ocidente, na expansão do comunismo ateísta, na proliferação dos cultos irracionais, na violência e na agressão, e no avanço do declínio dos padrões absolutos de bondade e verdade. Essas coisas são as obras daquele que as Escrituras chama de mentiroso, enganador, difamador e assassino.
Assim a conversão cristã e a regeneração permanecem como milagres da graça divina. Elas são a culminação de uma batalha poderosa entre Cristo e Satanás ou (em imagem viva do Apocalipse) entre o Cordeiro e o Dragão. O saque da casa do homem forte é possível porque ele foi amarrado por Aquele que é maior e por Sua morte e ressurreição, desarmou e destruiu os principados e os poderes do mal (Mt. 12:27-29;Lc. 11:20-22; Cl. 2:15).
Como podemos então entrar na vitória de Cristo e destruir os poderes do diabo? Deixe Lutero responder nossa pergunta: ein wortlein will ihn fallen (“uma simples palavra o lançará no chão”). Há poder na Palavra de Deus e na pregação do evangelho. Talvez a expressão mais dramática disso esteja no Novo Testamento em 2 Coríntios 4. Paulo fala sobre “o deus desse século” como tendo “cegado as mentes dos incrédulos, “nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (v. 4).
Se mentes humanas estão cegas, como poderão eles então ver? Somente pela criativa Palavra de Deus. Porque foi Deus quem disse “que haja luz nas trevas” quem tem brilhado em nossos corações para nos “dar a luz do conhecimento de sua glória na face de Cristo” (v. 6). O apóstolo assim compara o coração não regenerado ao primeiro caos de escuridão e atribui a regeneração ao “Fiat”, “Haja luz.”
Se então Satanás cega as mentes das pessoas, e Deus brilha nos corações delas, o que podemos esperar para contribuir nesse encontro? Não seria mais modesto para nós retirarmo-nos do campo do conflito e deixá-los lutar? Não, essa não é a conclusão que Paulo encontra. Pelo contrário, entre os versículos 4 e 6 que descreve as atividades de Satanás, o versículo 5 descreve a obra do evangelista: “pregamos... Jesus Cristo como Senhor”. Desde que a luz que o diabo tenta impedir as pessoas de ver e a qual Deus resplandece neles é o evangelho, é melhor pregá-lo!
Pregar o evangelho, longe de ser necessário, é indispensável. É o meio apontado por Deus pelo qual o príncipe das trevas é vencido e a luz brilha nos corações das pessoas. Há poder no evangelho de Deus – Seu poder para a salvação (Rm. 1:16).
Podemos ser muito fracos. Eu algumas vezes desejo que fossemos mais fracos. Diante das forças do mal, somos sempre tentados a mostrar a nossa força cristã, mas é em nossa fraqueza que a força de Cristo se aperfeiçoa em nós, e nas palavras da fraqueza humana que o Espírito endossa Seu poder. Assim é quando somos fracos que somos fortes (1 Cor. 2:1-5; 2 Cor. 12:9-10).